Capitães da Areia e a gargalhada que o Brasil insiste em calar
Quem me acompanha aqui conhece a série Òǹkọ̀wé, palavra iorubá que designa a escritora, aquela que narra, interpreta e registra o mundo.

Quem me acompanha aqui conhece a série Òǹkọ̀wé, palavra iorubá que designa a escritora, aquela que narra, interpreta e registra o mundo. Nela, proponho ler a literatura produzida por mulheres, como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves, como interpretação da formação social do Brasil. O objetivo é deslocar o centro de uma narrativa historicamente masculina e escutar o país a partir das margens, das escrevivências e dos corpos que o sustentam. Brasilidades nasce como irmã dessa série, a partir de uma pergunta vizinha: o que os livros, clássicos e contemporâneos, nos contam sobre aquilo que somos? Sobre como nos construímos enquanto cultura, enquanto povo, enquanto sociedade cheia de contradições, festas e feridas? A proposta é olhar para a literatura como quem olha para um espelho antigo: às vezes embaçado, às vezes cruel, mas sempre revelador. Para abrir esta caminhada, escolho Capitães da Areia, de Jorge Amado. Publicado em 1937, o livro teve exemplares queimados em praça pública em Salvador pelo Estado Novo. Um país que queima livros sobre meninos pobres já diz muito sobre si mesmo. Talvez o fato de Amado ter feito algo imperdoável para as elites da época: olhar para os meninos de rua como gente. O livro acompanha um bando de crianças e adolescentes abandonados que vivem num trapiche à beira do mar, na Bahia. Pedro Bala, Professor, Sem-Pernas, Gato, Pirulito, Volta Seca, João Grande, Boa-Vida e, depois, Dora. Meninos que roubam para comer, que dormem na areia, que são caçados pela polícia e pelos jornais. Meninos que aprendem cedo demais o que é fome, doença, reformatório e violência. Meninos que o país chamava, e ainda chama, de menores. Não por acaso, o Brasil daquele tempo era regido pelo Código de Menores de 1927, que não via crianças pobres como sujeitos de direitos, mas como problema de polícia. Mas há algo em Capitães da Areia que me toca mais do que a denúncia: a alegria. Brincam, contam histórias, jogam capoeira, SE apaixonam, sonham. No meio da miséria, “os dias da Bahia parecem dias de festa”. E é aqui que o livro nos conta algo profundo sobre a formação social deste país: a população pobre e negra do Brasil nunca foi apenas vítima, foi, e é, também inventora de vida. A festa, o riso, o terreiro, a roda, a música, tudo isso foi construído como forma de sobreviver a um projeto de nação que nunca nos quis inteiros. Penso na cena do carrossel, talvez uma das mais bonitas da nossa literatura. Meninos que roubavam para sobreviver, girando num brinquedo velho de parque como as crianças que eram. É dessa matéria que Jorge Amado tece seus personagens: mesmo feridos pela crueldade do mundo, carregam a possibilidade do encanto. “Dentro dele ia uma alegria de primavera”, escreve o autor. Quantas primaveras este país já roubou de seus meninos? Quantas infâncias foram interrompidas antes mesmo de começar? E há também a fé, a ancestralidade, a esperança coletiva. Quando a epidemia de bexiga toma conta da
Fonte: BRASIL DE FATO

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