Da tragédia anunciada à luta pela preservação do patrimônio negro na Penha
A recente tragédia no bairro da Penha de França, na zona leste de São Paulo (SP), em que o desabamento de um prédio de 12 andares em construção tirou a vida de seis pessoas de uma casa vizinha, não pode ser tratada como

A recente tragédia no bairro da Penha de França, na zona leste de São Paulo (SP), em que o desabamento de um prédio de 12 andares em construção tirou a vida de seis pessoas de uma casa vizinha, não pode ser tratada como um mero acidente. A obra já acumulava processos na justiça e interdições por irregularidades.
No entanto, a corrida pelo lucro rápido e a falta de fiscalização resultaram nessas vidas ceifadas. Essa sanha do mercado imobiliário, expressa na verticalização desenfreada em São Paulo, vem alterando drasticamente a paisagem da cidade e, no caso da Penha, representa também uma nítida ameaça ao patrimônio histórico e cultural negro no bairro.
Declarações recentes de agentes públicos chegaram a mencionar a necessidade de “destombamento” de edificações protegidas. Além disso, não são incomuns falas que rotulam a Penha como um bairro atrasado, comparando-a com o modelo do bairro vizinho, o Tatuapé, tomado por grandes prédios e trânsito caótico.
Mas muitos de seus moradores rejeitam essa ideia: o bairro não precisa e nem deve virar um novo Tatuapé. A ganância das construtoras, aliada à falta de proteção do poder público, revela uma tentativa clara de apagar a história de um dos bairros mais antigos da capital para dar lugar ao concreto.
O planejamento e a pressão do mercado imobiliário A pressão imobiliária no bairro da Penha é impulsionada atualmente pelas obras de ampliação da Linha 2–Verde do Metrô, projetada para conectar o bairro à Avenida Paulista. Essa obra é apresentada como modernização e democratização do acesso à cidade.
Afinal, melhorar o transporte público é algo necessário e bem-vindo para qualquer morador da zona leste. Contudo, a chegada dessa ampliação do metrô está sendo usada como catalisador da especulação imobiliária no bairro, pois o Plano Diretor da cidade permite maior verticalização nas áreas de seu entorno.
Em vez de somente garantir a melhoria da acessibilidade desejada por todos, o planejamento, em articulação com o mercado imobiliário, acaba induzindo o chamado “efeito Tatuapé” com seus prédios enormes, que sobem rápido e mudam radicalmente a paisagem do bairro, aumentam os congestionamentos, fazem o custo de vida disparar e elevar os aluguéis. Assim, aquilo que deveria ser um benefício para quem sempre morou ali pode virar um mecanismo de segregação espacial.
Entre a lógica corporativa e os laços comunitários Enquanto as corporações e construtoras enxergam a Penha como um mapa de oportunidades lucrativas, a realidade do bairro é muito mais complexa. Nas calçadas, nas praças e no comércio local, bem como nos espaços religiosos, pulsa uma vida comunitária feita de diversidade: o histórico acolhimento aos migrantes nordestinos soma-se, atualmente, à presença de povos latino-americanos, como bolivianos e peruanos, assim como os laços antigos marcados pela presença negra no bairro.
Esse sentido comunitário é resultado de uma construção histórica.
Fonte: BRASIL DE FATO


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