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Machado de Assis, precursor da literatura negra moderna

Há descobertas literárias que não dependem de encontrar um manuscrito perdido, uma carta desconhecida ou um romance esquecido.

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Machado de Assis, precursor da literatura negra modernaCrédito: Participantes do Primeiro Congresso Internacional de Escritores e Artistas Negros, em setembro de1956, na Sorbonne | Crédito: Lutetia

Há descobertas literárias que não dependem de encontrar um manuscrito perdido, uma carta desconhecida ou um romance esquecido. Às vezes, basta abrir um livro antigo e descobrir que um escritor estava sendo lido, em outro país e dentro de outra tradição intelectual, de uma maneira que sua própria cultura demoraria décadas para discutir. Foi o que aconteceu com Machado de Assis.  Em 1963, o escritor e historiador martinicano Léonard Sainville publicou, pela Présence Africaine, em Paris, a Anthologie de la littérature négro-africaine: Romanciers et conteurs . Seu projeto procurava pensar conjuntamente escritores negros da África, do Caribe e das Américas. É dentro dessa história transnacional que Machado surge numa posição excepcional: como precursor de uma literatura negra moderna e autônoma. A evidência mais clara aparece quando Sainville trata de René Maran, autor de Batouala e primeiro escritor negro a receber o Prix Goncourt, em 1921. Maran, escreve ele, teria SE afastado do pastiche, “assim como Machado de Assis, cerca de trinta anos antes”, demonstrando a possibilidade de uma literatura negra autêntica.  A comparação, registrada na página 419, muda a cronologia. SE Maran pertence ao momento de afirmação da literatura negra francófona no século 20, Machado aparece como alguém que havia realizado anteriormente a passagem fundamental da imitação para a autonomia. Não é apenas incluído numa tradição negra. Anthologie de la littérature négro-africaine: Romanciers et conteurs, 1963. Outro trecho torna essa posição ainda mais explícita. No início da antologia, Sainville descreve o nascimento de uma literatura africana, negro-americana, antilhana e malgaxe que passa a rejeitar a “pálida imitação” da cultura europeia. Essa nova produção, que ele denomina “romance negro-africano”, teria como parentesco fundamental uma tomada de consciência étnica formada num mundo marcado pela opressão, pelo racismo e pela discriminação.  Ao olhar para o período anterior, porém, Sainville encontra uma exceção.  “Les exceptions confirment la règle. Il n’y a eu qu’un Machado de Assis”.  Houve apenas um Machado de Assis”.  Sainville está afirmando que essa literatura negra autônoma só SE consolidaria coletivamente no século 20. Machado, entretanto, já teria alcançado no século 19 aquilo que outros escritores negros conquistariam décadas depois. Sua excepcionalidade é, portanto, também cronológica: Machado aparece como precursor. Essa leitura produz uma inversão particularmente interessante.  A familiaridade de Machado com Shakespeare, Sterne, Swift, Pascal, Montaigne e a tradição europeia foi muitas vezes utilizada para explicar seu cosmopolitismo. Sainville olha para essa mesma formação e encontra o contrário de submissão cultural. Para ele, o fato decisivo é que Machado deixou para trás o “pastiche”: recebeu modelos europeus, mas não permaneceu prisioneiro deles. Sua condição de precursor nasce justamente dessa transformação.

Fonte: BRASIL DE FATO

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