Quando o colapso climático expõe o abismo social
Moisés Waismann, Rute Henrique da Silva Ferreira, Lucimar Fátima Siqueira e Paula Pinhal de Carlos* O mês de maio de 2024 não passará como mais uma página de chuva no calendário do Rio Grande do Sul.

Moisés Waismann, Rute Henrique da Silva Ferreira, Lucimar Fátima Siqueira e Paula Pinhal de Carlos* O mês de maio de 2024 não passará como mais uma página de chuva no calendário do Rio Grande do Sul. Ele ficou gravado na carne e na memória coletiva como o momento em que a crise climática deixou de ser uma ameaça abstrata e se revelou em toda a sua violência socioambiental.
Dados recentes da Pesquisa Especial sobre as Enchentes (PEERS/IBGE), sistematizados pelo Observatório Unilasalle, traçAM o raio-X da devastação na Região Intermediária de Porto Alegre: dos 1,38 milhão de domicílios ali existentes, 92,7% (1.280.502 residências) sofreram algum impacto direto ou indireto da tragédia. A leitura observação dos números expõe o caráter sistêmico do desastre.
A água não apenas invadiu casas; ela paralisou a infraestrutura, desmantelou serviços públicos e escancarou a vulnerabilidade a que a população está submetida. Mais de um milhão de lares viram sumir das torneiras a água potável e das tomadas a energia elétrica.
As redes de comunicação caíram e o transporte público entrou em colapso. Entretanto, o desastre caiu sobre todos, a dor e a capacidade de resposta não foram distribuídas de forma igual.
É preciso dar nome àquilo que os dados revelam: o trauma tem classe, cor e gênero. Com uma população atingida de mais de 3,7 milhões de pessoas no recorte da análise, o levantamento mostra que as mulheres representam a maioria dos afetados (1,94 milhão).
Historicamente encarregadas da gestão do cuidado familiar e comunitário, foram elas as primeiras a reorganizar a vida em abrigos improvisados e a articular redes de solidariedade no caos. O desastre também atingiu com força as crianças e adolescentes (733 mil) e os idosos (712 mil) vivenciaram a perda repentina de seus territórios, rotinas e referências de segurança.
O rastro do evento socioclimático escancara, sobretudo, as falhas de governança e a lentidão do Estado. Pelo menos 538 mil famílias precisaram abandonar suas casas por ao menos uma noite para escapar da subida das águas, e mais de 610 mil pessoas mudaram de endereço durante a crise.
No entanto, enquanto mais de 221 mil moradias necessitaram de reconstrução urgente ou reassentamento por terem sido destruídas ou severamente danificadas, a ajuda financeira emergencial do poder público chegou a apenas 362 mil domicílios. Significa dizer que cerca de 73,5% dos lares da região ficaram desassistidos do auxílio financeiro no período mais crítico.
Essa lacuna na proteção social reflete-se diretamente sobre o bem estar da classe trabalhadora . Quase 1,5 milhão de moradores relataram uma piora drástica na capacidade da renda familiar de cobrir as despesas básicas mensais — reflexo imediato do encarecimento do custo de vida, do trabalho informal paralisado e da reposição forçada de bens essenciais perdidos na lama.
O impacto se estendeu também para aquilo que não se pode mensurar em metros quadrados de alvenaria.
Fonte: BRASIL DE FATO


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