Quem é a família miliciana — O peixe morre pela boca na polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida
Há uma ironia difícil de ignorar na tentativa da campanha de Flávio Bolsonaro de retirar das redes sociais uma postagem do humorista Antônio Tabet.

Há uma ironia difícil de ignorar na tentativa da campanha de Flávio Bolsonaro de retirar das redes sociais uma postagem do humorista Antônio Tabet. Ao comentar a polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida , Tabet escreveu que “a família miliciana” havia resolvido atacar a santa.
Não escreveu o sobrenome de ninguém. Ainda assim, a campanha do candidato à Presidência foi à Justiça Eleitoral alegando que a publicação o atingia.
Quem fez a associação entre a expressão e a família Bolsonaro foi, primeiro, a própria campanha. Recorrer à Justiça não equivale a confessar um crime.
Mas a iniciativa revela o tamanho do incômodo político que essa associação provoca. A campanha pediu a retirada da postagem, e o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral, concedeu a liminar.
Posteriormente, o ministro Flávio Dino suspendeu a ordem. Para Dino, retirar o conteúdo exigiria presumir que a expressão “família miliciana” se referia a Flávio Bolsonaro — justamente a ligação que a postagem não fazia de maneira explícita.
O episódio também expõe uma contradição conhecida. O bolsonarismo transformou a “liberdade de expressão” em bandeira permanente.
Quando a expressão é usada para criticar seu candidato, porém, sua campanha recorre à Justiça para removê-la. Candidatos devem poder contestar informações falsas e se defender de ataques ilícitos.
Isso não lhes dá o direito de impedir a circulação de crítica política apenas porque ela é dura, irônica ou inconveniente. A discussão, contudo, não começou com a postagem de Tabet.
Há anos, fatos relacionados à trajetória política dos Bolsonaro alimentam perguntas sobre suas relações com personagens ligados às milícias do Rio de Janeiro. Quando era deputado estadual, Flávio Bolsonaro homenageou Adriano da Nóbrega, posteriormente apontado como chefe do chamado Escritório do Crime.
A mãe e a ex-mulher de Adriano trabalharam em seu gabinete na Assembleia Legislativa fluminense. Ambas apareceram nas investigações sobre as suspeitas de “rachadinha”, esquema atribuído pelo Ministério Público à atuação de Fabrício Queiroz , ex-assessor de Flávio.
Há ainda um fato que ficou marcado na memória do país: Ronnie Lessa, assassino confesso de Marielle Franco e Anderson Gomes, morava no mesmo condomínio de Jair Bolsonaro, o Vivendas da Barra, no Rio de Janeiro. Dividir um endereço não prova uma relação pessoal, muito menos envolvimento da família no assassinato.
Mas é compreensível que a descoberta tenha provocado perguntas, sobretudo diante dos outros episódios envolvendo o entorno político de Flávio. Essas perguntas não se encerram pela simples tentativa de proibir uma expressão nas redes sociais.
Flávio apresentou suas explicações para a homenagem a Adriano e para a contratação de suas familiares.
Fonte: BRASIL DE FATO


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