Países vulneráveis devem gastar US$ 8,8 trilhões com dívidas em 2026, aponta estudo
O Sul Global deve desembolsar US$ 8,8 trilhões com o pagamento de dívidas em 2026, cerca de 225 vezes os US$ 39 bilhões recebidos em financiamento climático na forma de doações em 2024, dado mais recente disponível.

O pagamento de dívidas deverá consumir uma parcela significativa dos recursos públicos de países vulneráveis às mudanças climáticas em 2026. Um levantamento da ActionAid estima que o Sul Global desembolsará cerca de US$ 8,8 trilhões com dívidas ao longo do ano. O valor é aproximadamente 225 vezes superior aos US$ 39 bilhões que, segundo os dados utilizados pelo estudo, foram destinados a esses países em financiamento climático na forma de doações em 2024. Os números fazem parte do relatório “Dívida agrava crise climática: como o financiamento flui”, elaborado para analisar a relação entre endividamento público e capacidade de resposta às mudanças do clima. Estudo analisou 65 países O levantamento considera informações fiscais, dívida soberana, orçamentos públicos e planos climáticos de 65 países considerados entre os mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas. De acordo com os cálculos apresentados pela organização, o serviço da dívida consome, em média, aproximadamente 65% das receitas governamentais desses países. A diferença também aparece quando os pagamentos são comparados aos recursos destinados diretamente às políticas climáticas. Segundo o relatório, em 2026 os países analisados devem gastar quase 25 vezes mais com o serviço da dívida do que com ações relacionadas ao clima. Dívidas também superam despesas sociais O estudo compara ainda o endividamento com outras áreas dos orçamentos nacionais. Os pagamentos associados às dívidas representariam aproximadamente quatro vezes os recursos destinados à educação, sete vezes os gastos com saúde e seis vezes as despesas relacionadas à proteção social, considerando o conjunto de países estudados. Outro indicador apresentado pela ActionAid aponta que 93,5% dos países mais vulneráveis analisados enfrentam problemas de endividamento ou apresentam risco significativo de chegar a essa situação. Os números são estimativas elaboradas pela organização a partir da metodologia adotada no relatório e devem ser interpretados dentro desse universo específico de países. Eventos extremos pressionam os cofres públicos A relação entre endividamento e clima pode se tornar mais complexa quando um país é atingido por enchentes, secas, ciclones ou outros eventos extremos. Desastres de grande escala exigem recursos para socorro à população, recuperação da infraestrutura, reconstrução de moradias e retomada da atividade econômica. Países com menor disponibilidade financeira podem recorrer a novos empréstimos para financiar essas despesas. Com isso, o aumento da dívida pode elevar os pagamentos futuros e reduzir a quantidade de recursos disponíveis para investimentos públicos. O relatório argumenta que esse processo pode formar um ciclo no qual governos precisam financiar a reconstrução após um desastre ao mesmo tempo em que continuam cumprindo compromissos financeiros anteriores. Recursos para prevenção podem ser afetados Um dos principais pontos levantados pela organização é o impacto que esse cenário pode ter sobre políticas de adaptação às mudanças climáticas. Recursos utilizados no pagamento da dívida deixam de estar disponíveis para outras despesas públicas. Isso pode limitar investimentos em prevenção de desastres, infraestrutura resiliente, sistemas de alerta, proteção social e transição energética. A ActionAid também relaciona o problema à necessidade de obtenção de moeda estrangeira. Segundo a análise da entidade, países endividados podem ampliar atividades de exportação para aumentar suas receitas externas. O relatório cita, entre os setores que podem ganhar espaço nesse cenário, a exploração de combustíveis fósseis e segmentos da agricultura industrial. Financiamento climático entra no debate O estudo chama atenção ainda para a composição do financiamento internacional destinado ao enfrentamento das mudanças climáticas. Uma das discussões apresentadas é a diferença entre recursos concedidos como doações e aqueles oferecidos na forma de empréstimos. Quando o financiamento climático gera novas obrigações de pagamento, existe o risco de ampliar o endividamento de países que já enfrentam dificuldades fiscais. Por isso, organizações envolvidas no debate climático defendem mudanças nos mecanismos internacionais de financiamento e maior participação de recursos que não aumentem a dívida dos países mais vulneráveis. A divulgação do relatório acrescenta novos dados à discussão internacional sobre como financiar adaptação, prevenção e redução das emissões sem ampliar as dificuldades fiscais das economias mais expostas aos efeitos das mudanças climáticas.

Fonte: ActionAid Internacional


Comentários
Deixe sua opinião sobre esta notícia.
Seja o primeiro a comentar