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Trânsito

Tive uma recaída na dependência do automóvel

Não vou pedir perdão e nem vou fazer firulas: neste Dia Mundial Sem Carro, me declaro dependente do automóvel.

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Imagem relacionada à reportagem Eu confesso: tive uma recaída na dependência do automóvel
Eu confesso: tive uma recaída na dependência do automóvelCrédito: Trabalhadores enfrentam dificuldades para cruzar o Rio Pinheiros de bicicleta pela Ponte do Jaguaré na Zona Oeste de São Paulo. 24/05/23 | Crédito: Rogério Viduedo

Não vou pedir perdão e nem vou fazer firulas: neste Dia Mundial Sem Carro, me declaro dependente do automóvel. Assim como é recorrente ao adicto do álcool, da nicotina, da cocaína, do jogo e outras drogas, tive uma recaída duradoura depois de acompanhar por mais de 15 meses a minha falecida esposa, Fernanda, nas inúmeras visitas a centros médicos e hospitais, onde enfrentava o câncer de ovário e as consequências que causaram a sua morte no último mês de junho. Dirigi muito e, ao contrário de quando a vida era normal e eu ficava inconformado de ter que andar de carro na cidade, mesmo com ela ao volante, me resignei com a situação e, mesmo naqueles intermináveis engarrafamentos na Marginal do Tietê em sua companhia, mantive uma calma franciscana, uma vez que ficar puto por dirigir no trânsito paulistano — e isso ir contra minha convicção de que poderia fazer todos meus deslocamentos em bicicleta — não era nada comparado à luta a qual ela enfrentava com quimioterapias, radioterapias, antibióticos e demais sessões torturantes pelas quais foi submetida. Ao invés de me converter naquele personagem, no Pateta, em um antigo desenho da Disney — no qual ele SE transforma de um ser dócil em um animal urbano irracional, buzinando e xingando todos logo após sentar-SE atrás do volante –, adotei a postura de tolerância, procurando respirar sempre que uma barbaridade era cometida por motoristas e motociclistas. Afinal, meu foco durante todos aqueles meses era não transferir para a Fê nenhuma paranoia urbana e deixá-la confortável comigo ao volante. Sinto que fiz todo o possível para que ela tivesse o melhor tratamento, e agora a vida segue. Eu não estou tão radical: quero ter algum conforto no tempo que me resta e saberei balancear o uso do automóvel com a bicicleta e transporte público. Eu queria poder fazer tudo de bicicleta, mas a vida é o que é, e neste momento estou incumbido de uma tarefa temporária em que o carro é fundamental. Como não posso recusar dinheiro, aceitei, e vida que segue. E também não me recrimino de usar o Chevrolet para visitar amigos no domingo chuvoso ou ir àquele supermercado mais longe, onde tem melhores preços. Cada um sabe do seu próprio orçamento. Mas não foi só o tratamento dela e o luto que me jogaram de volta no colo da carro-dependência; há toda uma frustração de não ter conseguido objetivos que imaginava estarem cumpridos neste momento. Um deles é a cidade de São Paulo ter abandonado as metas do Plano de Mobilidade e passar a tratar o uso de bicicletas como assunto pontual em vez de sistêmico. Começou em 2016, quando João Doria SE elegeu prefeito e botou uma pedra em cima dos projetos de expansão de ciclovias e ciclofaixas. O sucessor, Bruno Covas, até que deu uma retomada e implantou cerca de 140 quilômetros, mas ele morreu e Ricardo Nunes, atual prefeito, preferiu investir na mobilidade por motocicletas, o que tem tornado a vida de quem pedala na cidade um inferno, pois não existe uma ciclofaixa que não seja invadida

Fonte: BRASIL DE FATO

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